Opinión
Herdar um sistema, escolher uma comunidade

As pessoas com as que nascesmos supõem um perigo para muites de nós. Não um perigo dramático, mas sim aquele perigo silencioso e doméstico que se instala quando medras numa casa onde os sentimentos se guardam na gaveta do fundo.
15 jul 2026 05:30

A abolição da família assusta. Mas não pelo motivo que pensas: não se trata de eliminar pessoas, mas de desmantelar uma estrutura, e essa distinção é o coração do feminismo e do queer. É impossível atingirmos a completa liberação das mulheres e pessoas enebê sem repensarmos a estrutura familiar capitalista em que estão inseridas na sociedade atual. Uma estrutura que promove a rapidez, as mentes vazias de informação e a mais absoluta soidade. Isto afeta desde a criança totalmente individualista que se pratica atualmente, em que, no máximo, contas com um senhor que admite publicamente saber mudar as fraldas da sua descendência —sempre nesse tom paternalista e misógino de quem não sabe onde deixar a dita fralda suja após a sua heroica façanha—, até o aceso a uma habitação sem nenhume companheire, algo que o mundo assume como claramente transitório, como se o objetivo de vida fosse a cama de casal e não a mesa comprida cheia de gente escolhida.

Família é, na sua origem, o nome dado ao conjunto de pertenças, tanto humanas quanto materiais, do “chefe de família”, de quem senta no cabeçalho da mesa esperando a que lhe sirvam o cozido bem quente, bem feito, bem limpo, e, de preferência, em silêncio. É amplamente conhecido o motivo que desatou a guerra de Troia: o rapto (ou roubo, porque foi tratada como um objeto) de Helena provocou a ira dos homens que, de súbito, viam a sua honra rota e decidiram acompanhar Menelao para ver quem matava antes a quem desatou semelhante escândalo. Centos de homens com lanças deixaram as suas pertenças –famílias, perdão– na terra conquistada e saíram para arriscar a vida no campo de batalha para conseguirem, caso sobrevivessem, ouro, joias e sexo durante a guerra, esse último declarado indispensável para o bom funcionamento do género masculino. Com o passar do tempo conhecemos a família de Ulisses, de Aquiles e doutros homens relevantes nessa história, mas e a família de Briseida? A de Penélope? A de Helena? Se calhar não temos conhecimento da sua árvore genealógica porque elas não possuem, são possuídas.

Existe, aliás, um ideal de família, porque evidentemente há parâmetros que qualificam de “válida” aquela que os cumpre: formada por um casal heterossexual e monógamo, com uma criança de cada género binário, com certo poder socioeconómico, branca e proprietária. Tudo o que fica excluído —a maioria, convém lembrar— é controlado e sancionado por não se adequar a uma perfeição que ninguém elegeu mas toda a gente herdou. E a ironia cruel é esta: a maior parte dos abusos têm lugar precisamente dentro dessa família nuclear tão celebrada. Como disse Sophie Lewis, “ninguém tem mais possibilidades de te roubar, acossar, manipular, pegar ou tocar sem o teu consentimento do que a tua família” (2023: 24).

É urgente compreendermos que as pessoas com as que nasces supõem um perigo para muites de nós. Não um perigo dramático, do estilo filme de terror —em princípio ninguém aparece com uma faca na cozinha—, mas sim aquele perigo silencioso e doméstico que se instala quando medras numa casa onde os sentimentos se guardam na gaveta do fundo, atrás das meias velhas que ninguém usa. A família, essa instituição tão celebrada em jantares de Natal e fotografias de moldura dourada, tem a extraordinária capacidade de nos ensinar precisamente aquilo que não queremos aprender: a desconfiar do afeto, a encolher quando alguém se aproxima demasiado, a interpretar o silêncio como norma e o carinho como suspeita. Anos de formação em lugares frios, ásperos e sem rede –entenda-se: sem a rede emocional que amortece as quedas– produzem adultes que navegam pelo mundo com a elegância de alguém que aprendeu a nadar num tanque vazio.

E no entanto, eis o paradoxo delicioso que nos define como espécie: depois de tudo isso, o que mais desejamos é justamente o contrário. Uma comunidade bem quentinha. Com a sua manta —física ou metafórica, tanto faz—, com a sua escuta ativa, com pessoas que perguntam como estás e têm genuína disponibilidade para ouvir a resposta, mesmo que ela dure quarenta minutos e inclua uma digressão sobre a infância. A boa notícia é que essa comunidade existe, e que é inteiramente possível construí-la. Nem sempre com as pessoas com que se nasce, mas sim com aquelas que se escolhe, o que é, afinal, a forma mais honesta de pertencer a algum lugar.

Esta conceção patriarcal deve constituir o foco de estudo e de crítica do feminismo e do queer, já que, enquanto a família continue a ser uma tecnologia funcional para o capitalismo, nenhuma pessoa será realmente livre. Superar esta conceção significaria reorganizarmos os cuidados duma maneira mais coletiva, o que num mundo que confunde individualismo com independência e soidade com fracasso não é pouco. Não é fácil: somos filhes duma estrutura, herdamos um sistema bem consolidado e extraordinariamente resistente a ser removido, um sistema que estabeleceu como sinónimo de respeito a pirâmide da família nuclear e que pune com estranheza –quando não com pena– quem ousa habitá-la doutro modo. Mas a distopia que criou María Reimóndez já não é tão distópica. É o nosso presente, e é a nossa responsabilidade coletiva –e urgente– melhorá-lo.

Los artículos de opinión no reflejan necesariamente la visión del medio.

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