Opinión
Não éramos jovens: éramos independentistas

A Coordinadora da Mocidade Socialista (CMS) reivindicou o 24 de Julho como data de referência para a juventude rebelde negligenciando um facto fulcral: aquela juventude era independentista. O caso permite refletir sobre os conceitos de memória e história.
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Un grupo de antidisturbios fronte a militantes independentistas nas rúas de Compostele en xullo de 2020. Foto: Galiza Contrainfo. Galiza Contrainfo
16 jul 2026 05:30

Pertenço à geração militante que acaso seja a mais penosa desde que o soberanismo encetou a sua luta com a Revolução de 1846. Os motivos não são claros, mas neste caso também não importantes; quem tiver interesse pode visitar o profícuo debate aberto por Ximena González no Caseto da Clara Corbelhe há dois anos e no qual tive a ocasião de participar. O importante àquele respeito é que os fracassos da minha geração me permitem falar dela com honestidade e sem nostalgia; sem a desilusão de quem viu o tombo da sua grande obra mas também —e isto é bem mais difícil— sem a culpa de quem deixou cair a de outrem.

Por enquadrar-me temporalmente, direi que entrei na roda da militância em 2016, ao aceder à universidade, e saí dela poucos anos depois, em 2022. Sem entrar em detalhes sobre a minha atividade, gostaria de falar a seguir do espaço em que foquei a maior parte do meu esforço ativista: a Mocidade pola Independência (MPI).

Nasceu em 2017 como uma rede de assembleias abertas de adscrição pessoal, sucessora da Coordenadora Juvenil Galega do independentismo (CJG), uma plataforma de organizações formada em 2013 na procura do encontro por um objetivo comum. Na MPI os —realmente— independentes como eu convivemos em distintas fases com três das quatro famílias do independentismo da altura: Briga, Isca! e jovens de Causa Galiza, mesmo com alguma presença pontual da UMG, quem sabe se por despiste. Ainda que estiveram nas primeiras iniciativas da CJG em 2013 e 2014, as militantes de Xeira e dos outros satélites da FPG ficaram de costas à MPI.

Como mostra do nosso compromisso substancial com a independência nacional e social da Galiza, não só decidimos colocá-la no nome, como também adotar algumas das tradições históricas do independentismo: a comemoração da 1ª República Galega de 1931, a queima de bandeiras espanholas, a preferência do “in-de-pen-dên-cia” sobre o “Galiza ceive, poder popular” ou a relembrança das prisioneiras políticas independentistas nos nossos atos são alguns bons exemplos. O mais destacado é sem dúvida a manutenção do 24 de Julho, véspera do Dia da Pátria, como dia oficial das mobilizações do independentismo juvenil. Inclusive, na edição de 2020 tentou-se recuperar a combativa rondalha noturna da AMI pelas ruas da zona velha de Compostela, deixando umas impactantes imagens de um confronto com a polícia que não chegou a dar-se.

Precisamente era o nosso independentismo que nos colocava numa situação conflituosa em muitos planos, como vinha acontecendo de antigo ao movimento.

Uma mostra pouco dramática é a dificuldade para colaborar com a órbita do nacionalismo institucional, especialmente em períodos pré-eleitorais, em que as manifes do 24J serviam para mostrar o logótipo às potenciais votantes e não para avançar na procura de uns objetivos comuns. As companheiras de Ponte Vedra chegaram a tomar com humor que, ano após ano, os cartazes que com tanto esforço colavam fossem sistematicamente ocultos por outros do partido do governo local.

Mais dolorosas foram as coimas, identificações, intimidações e detenções a que éramos submetidas cada 24J — e não só —, geralmente por ações diretamente vinculadas com a reivindicação da independência: na última ocasião de que tive conhecimento, nada menos que por um delito de “ultrajes a España”. Mesmo quem isto escreve, após ser detido por uma série de ações de puro vandalismo, sem legendas, vindicações nem quase intencionalidade política, foi apresentado na imprensa local — que tomou como única fonte a nota de imprensa da polícia espanhola — como um “joven independentista”.

Na sua tese A construción mediática do conflito: o caso de Resistência Galega, Helena Domínguez mostra como foi necessária a criminalização do movimento nos media para justificar umas medidas judiciais desproporcionadas contra as militantes. Numa reportagem no Novas da Galiza (nº 228) os juristas David Soto e Borxa Colmenero coincidiam em analisar que a dureza fosse devida ao compromisso independentista e não à presumível perigosidade das penadas.

Seja lá como for, a independência era importante para nós tanto como para as gerações prévias, das quais nos sentíamos herdeiras, ainda que houvesse um preço a pagar. Esse era o foco de todos os 24J e calculo que continue a ser, dado que a convocatória continua a celebrar-se anualmente. Não éramos jovens rebeldes, nem nacionalistas nem qualquer outra coisa. Éramos independentistas. Não éramos contra o chauvinismo espanhol, éramos contra a nação espanhola e as suas defensoras, desde o Exército até às seleções de futebol ou os selos de Correos. Não éramos contra o espanholismo mais ranço, éramos contra Espanha e contra o Capital (luta operária, luta nacional).

Que a Coordinadora da Mocidade Socialista (CMS) convoque uma manifestação em Compostela dia 24 de Julho nada tem de mau, ou se o tem não pretendo avaliá-lo. Trata-se de um espaço que consegue convocar grandes quantidades de jovens sob um discurso revolucionário e suscitar um certo compromisso. Mesmo secundarizando ou até suprimindo a luta nacional — as pandeiretas e as gaitas não conseguem obscurecer o facto, desolé — é uma batalha que, com os seus próprios meios, a CMS vai ganhando ao independentismo.

No vídeo de apresentação do seu 24J têm inclusive o mimo de recordar por que é que é um dia importante. A maior parte da sua militância e das suas adetas são pessoas muito jovens e é fácil que não conheçam as origens da data. Utilizam materiais audiovisuais de mobilizações de anos passados, imagens que remetem para o combate, mesmo para a violência. Visam, segundo parece, recuperar um tipo de protesto que há anos que não conhecemos na Galiza para além de casos muito concretos e sempre sem continuidade no tempo.

Porém, negligenciaram aquilo que para a minha geração, as anteriores e mesmo alguma posterior marcou todos os 24 de Julho, como já foi dito: eram manifestações independentistas. Nas imagens que utilizou a CMS neste vídeo e noutros anteriores aparecem, ainda que não se distingam, pessoas que pagaram o seu compromisso com anos de cadeia. Não um compromisso com a rebelião nem contra o chauvinismo: um compromisso com a independência. Trata-se de imagens em muitos casos filmadas e inventariadas por projetos cujo principal sentido era dotar o independentismo de um arquivo audiovisual. Trata-se, de facto, de imagens mormente da AMI, cuja prioridade era a luta nacional e a independência da Galiza.

Eis um bom exemplo desse oxímoro que é a memória histórica: quando fala a memória, o 24J é uma data para a juventude combativa, mas a história diz-nos invariavelmente que é uma data do independentismo. Memória para esquecermos a história, diz um caro amigo.

E o problema não é, quase com certeza, da militância da CMS, que em muitos casos, com efeito, por idade não tem na memória quaisquer mobilizações do 24J. O problema é das lideranças que constroem esses discursos, que conhecem essa história e decidem esquecê-la pelo bem do seu programa. Especialmente no caso de quem já teve a fortuna de participar — e com imenso envolvimento — da organização desses mesmos eventos netamente independentistas.

Deitar-se indepe e acordar trotsko nada tem de mau. Viva quem consegue reformular os seus esquemas e renunciar ao que tanto amava. Mas essa mudança acarreta uma imensa responsabilidade para com a história. E a história do 24 de Julho é uma história do independentismo.

Los artículos de opinión no reflejan necesariamente la visión del medio.

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