Auga limpa 1
Acción no río Limia.

Abraçar um rio contaminado

No passado 16 de junho, os municípios de Xinzo de Limia e Ponte de Lima trouxeram centenas de crianças a um evento para celebrar o Rio Limia. Militantes do movimento Auga limpa xa! interromperam o “abraço” para denunciar a contaminação do rio.
7 jul 2026 05:30

É manhã cedo do dia 16 de junho quando quase duas mãos cheias de militantes do movimento de defesa da água se encontram num jardim em Xinzo de Limia. O rio está verde, raso em profundidade, ainda que nem o verão tenha iniciado. Passaram apenas umas horas desde que decidiram, ontem, pelo início da noite, organizar uma ação subversiva aqui mesmo. “Já está a polícia”, diz um deles, enquanto se passeia vagarosamente, peito cheio, cabeça levantada, levando na mão duas tarjas de uns poucos metros, fundo branco e letras garrafais verdes, onde se lê “Auga limpa xa!”.

É Manuel García, um dos fundadores do coletivo e também do Movemento Ecoloxista da Limia. Além das tarjas, leva também estampada na t-shirt a frase “Auga Limpa Xa!”. Mas Manuel García não precisa levar propaganda ao peito para ser reconhecido nas ruas, pelo menos por quem tem andado atenta ao que se tem passado com o Rio Limia nos últimos anos. Em 2020, o militante do povo de Rairiz da Veiga recebeu uma nota do tribunal dando conta que a Coren, uma cooperativa de cooperativas e uma das maiores empresas galegas, lhe demandava um milhão de euros por danos à honra. Em causa estavam declarações de Manuel García feitas meses antes na RTVE, que imputavam à gigante cooperativa de produção de carne, responsável pela maior parte da produção de carne em toda a Galiza, responsabilidade por descarregar durante anos esterco das suas granjas nos campos da comarca da Limia, contaminando o rio e os lençóis freáticos como consequência. O processo acabou por ser retirado, mas tornou Manuel García num símbolo da luta pela defesa das águas nesta região.

E ontem, ao reparar que o Concello de Xinzo de Limia e a Câmara Municipal de Ponte de Lima se preparavam para organizar mais uma edição do evento Abrazo ao Limia, homenageando o rio que liga as duas vilas, de um lado e do outro da fronteira, decidiu que a celebração não poderia passar em claro. Enviou mensagens à gente companheira do coletivo e rapidamente se juntou uma dezena de pessoas aqui. O plano é simples, contam-me: no momento em que centenas de crianças dos dois concelhos começarem a dispor-se em torno do rio, ocupando as suas margens e as duas passarelas que o atravessam, como que abraçando-o num grande círculo, os ativistas subirão a uma das passarelas para bloquear o seu acesso com uma das faixas. A outra ficará numa das margens: “Então, de qualquer lugar de onde tirarem fotos ou gravarem a televisão, vão poder vê-las”. 

O grupo avança em direção à passarela. E ao chegar à entrada da ponte, sem ainda a pisar, dois agentes bloqueiam-nos, declarando que é proibido acedê-la com uma pancarta na mão. Manuel García responde: “A hipocrisia deste ato é uma pena. Já passaram 14 anos e em nenhum momento neste ato se fala da situação do rio e da situação do aquífero. É tudo folclore”. “Podemos estar mais de acordo contigo, menos de acordo”, diz um dos polícias, “o que lhe pedimos aqui é que tenham um pouquinho de calma, porque no final não queremos ter conflitos”. Manuel García explica que não há qualquer conflito, que apenas querem que as gentes leiam a frase. Os agentes mantêm: se subirem à ponte com a pancarta, vão ter de retirá-los à força e detê-los. “Mas é ilegal, ir à ponte?”, pergunto ao polícia. “Bem, na ponte vão estar as crianças, não querem que isto se transforme numa guerra”.

Entre a confusão, aproxima-se do grupo o conselleiro de Cultura, Educación, Universidade e Formación Profesional da Xunta, Román Rodríguez. “Este é um ato escolar e peço-vos, por favor, que respeiteis o momento do abraço escolar. A reivindicação é respeitável, é compreensível, mas deveis ocupar outro lugar”. “Isto é uma questão de pedagogia”, responde Manuel García, “é pedagogia que os rapazes vejam uma faixa que diz ‘água limpa já’”. “Eu acho que não. Acho que estás enganado. Isto é um ato de crianças. O que pedimos é que, por favor, deixem de continuar com o ato”, repete o conselheiro.

Pergunto a Román Rodríguez sobre a relevância de, este ano, o Abrazo ao Limia se realizar apenas meses depois de ter sido confirmada pelo Tribunal Superior de Xustiza de Galicia uma sentença histórica: a Xunta de Galicia e a Confederación Hidrográfica Miño-Sil foram consideradas culpadas de violar os direitos fundamentais de cidadãos ao permitir a contaminação ganadeira do Rio Lima no embalse de As Conchas, a menos de 30 quilómetros de onde nos encontramos — não por terem diretamente contaminado o rio, já que isso, está provado, vem da proliferação excessiva e má gestão de chorumes de mais de 300 granxas de exploração animal na comarca A Limia. Román Rodríguez recusa responder. Pergunto-lhe se, em sua casa, bebe água do grifo. Responde que sim, sem problema nenhum. Que até se banha no rio, aqui mesmo, todos os anos, pela altura da festa do Passo do Rio Esquecimento, em agosto. Deixa ainda o convite para que voltemos aqui na edição da festa deste agosto, para vê-lo atravessar o rio, e retira-se.

A resposta faz lembrar uma já antiga manobra de relações públicas do estado espanhol. Em 1966, o então ministro da Informação e Turismo da ditadura franquista (mais tarde presidente da Xunta da Galiza) foi ao banho na Praia de Palomares, em Almería, pouco tempo depois de dois aviões estadunidenses terem colidido ali mesmo, fazendo cair quatro bombas termonucleares com material radioativo que contaminou aquela zona. A ideia era demonstrar que, mesmo com a contaminação da praia, não deixava de ser seguro utilizar a praia. 

Enquanto que a poucos metros se vão esgrimindo militantes da Auga Limpa Xa! e agentes da Policía Local, numa linha ténue entre cordialidade e ameaça de detenção, do outro jorra música de colunas, e centenas de crianças com bonés de cor verde com a inscrição XIV Abrazo ao Rio Limia vão olhando um palco onde se revezam músicos e políticos, uns animando a festa, outros descrevendo o que se vai passar e a importância do momento. Aproximo-me da multidão para falar com alguns dos professores que acompanham os alunos. Pergunto a um deles se bebe água do grifo: “Eu não o faço, por causa da contaminação”. Ainda outro: “Não, não! Eu a água trago-a de uma fonte da terra de onde sou eu, em Celanova”. Uma professora diz vir a este evento há cerca de 12 anos: “Nada! Água embotellada. Não sabemos às vezes o que vai nas águas subterrâneas nem o que se bota para abonar explorações”. Pergunto-lhe se se banha no rio, como o faz o conselheiro Román Rodríguez: “Não podemos banhar-nos, por causa da contaminação. Gostava de banhar e disfrutar do rio, por suposto”. Um outro professor é também claro: “Não, não, não! O rio está um pouco tóxico, já à vista não invita”.

O evento continua. As centenas de crianças, juntamente com os professores que as trouxeram, deslocam-se para as margens do rio e para as duas passarelas que o sobrepassam, de mãos dadas. A moldura humana forma uma espécie de círculo com o rio ao centro, como que realmente o abraçando. Numa das pontes, lado a lado, destoam do resto da rapaziada uma série de políticos encamisados, sorrindo para as poucas câmaras que aqui se encontram. E, inesperadamente, surge dentro do rio, por baixo de uma das passarelas, com água pelos tornozelos, Manuel García e outro dos militantes que aqui vieram hoje, erguendo a pancarta com a frase “Auga limpa xa!”, letras verdes, da cor do rio. Os polícias que antes os impediram de subir à passarela falam entre si, como que perguntando-se o que fazer. Não entram no rio para os deter.  Segundos depois, dezenas de crianças (e alguns professores), começam a gritar de cima, nas margens e nas passarelas, “auga limpa xa”. Os dois ativistas sorriem e incentivam os cânticos. Os restantes militantes quedam-se numa das margens do rio, estrategicamente colocados na direção dos políticos dos políticos, com a segunda faixa erguida. 

Findo o ato, a gente dispersa e volta ao jardim onde se mantém o palco. Pergunto ao alcalde de Xinzo de Limia, Amador Díaz se esperava uma ação destas hoje. O alcalde diz que respeita as reivindicações, mas que acredita que este não é o sítio certo para elas. Questiono se concorda com a reivindicação de ter água limpa aqui no rio Limia. “Claro que concordamos. Eu acho que, no final, manter um rio limpo mantém a vida. Temos que pensar que a água é tudo. Curiosamente, na Galiza, eu acho que nunca lhe demos a importância que tem”. À pergunta se concorda que o rio está contaminado, responde afirmativamente. “Parece que há uma sentença da Xunta da Galiza e da Confederação que terão que fazer uma atuação”, diz. Mas acrescenta que é à confederação, à Xunta e a quem quer que seja que tenha competência sobre a gestão do que se deve exigir atuações, não aos Concelhos. “Eu tenho que dizer que, além de autarca, sou agricultor. E bom, pois eu sim que tenho uma grande consciencialização, tanto da água como da terra, porque eu vivo de uma terra que tenho que deixar aos meus filhos para que continuem a viver dela. Que continue a passar de geração em geração, porque no final é o sustento”.

Amador Díaz conta que tem cerca de 10 hectares de plantação de batata e uns 40 hectares de cereal. Pergunto se utiliza adubo. “Utilizamos esterco de galinácea”. “Compram onde?”. “Compra-se a exploitacións, sim”. Pergunto se alguma dessa galinácea vem de granxas que pertencem à gigante operação da Coren. “Sim, sim, claro. Nós compramo-lo a granjas que podem estar integradas na Coren ou noutra cooperativa”. Pergunto se bebe água do grifo. “Claro que sim”, diz o alcalde. Explico que, durante o dia, perguntei a várias pessoas, e as únicas duas que disseram que bebiam água do grifo foram os dois políticos do Concelho. “Eu bebo a agua, duchome con ela. Eu non tenho ningún problema”, já que as análises que se fazem mensalmente, diz, mostram que a água é segura.

O alcalde sai para juntar-se a um outro momento institucional. Uma série de crianças portuguesas e galegas são chamadas para plantar uma árvore no jardim. E enquanto os autarcas das duas vilas se dispõem numa linha, observando a ação a um par de metros da mesma, o funcionário do Concello que supervisiona o momento agacha-se para ajudar a rapaziada a dispor a árvore na terra. Na cabeça, leva um boné. Não o boné verde que todas as crianças utilizam. Um outro, de uma cor clara. Em letras vermelhas lê-se: Coren.

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